A auditoria é uma prática essencial em diferentes frentes da gestão empresarial: tributária, trabalhista e também cível.
Cada uma dessas áreas tem sua própria dinâmica de riscos, no campo cível, eles não decorrem de um calendário fiscal ou de uma rotina de folha de pagamento, mas do volume diário de relações jurídicas que a empresa estabelece.
Contratos assinados, clausula mal redigidas, relações com fornecedores e clientes sem a devida formalização, garantias prestadas, prazos acordados, cada uma dessas relações é, também, uma decisão jurídica com potencial de gerar passivo.
A auditoria cível preventiva existe justamente para dar a essa frente a atenção estruturada que ela exige.
Trata-se de um exame estruturado de revisão de contratos, práticas comerciais e rotinas internas, com o objetivo de identificar riscos antes que eles se transformem em litígios.
Os riscos cíveis geralmente ficam represados na rotina da empresa, sem que ninguém precise se posicionar sobre eles, até que um gatilho externo force sua revisão quando um cliente, um fornecedor ou um sócio leve a questão para fora da mesa de negociação,
É esse caráter silencioso que torna o passivo cível mais perigoso do que aparenta: pequenas falhas isoladas, não geram alarme, mas se acumulam ao longo do tempo e costumam se revelar de uma só vez, já na forma de notificação extrajudicial, ação judicial ou impasse comercial, momento em que a correção da falha é bem mais onerosa do que seria em uma revisão preventiva.
Entre os pontos que integram esse tipo de revisão, destacam-se:
A auditoria cível ganha ainda mais relevância em momentos específicos da vida da empresa, como fusões, aquisições, entrada de novos sócios ou grandes parcerias comerciais.
Nesses casos, ela se manifesta na forma de due diligence: um levantamento aprofundado dos contratos, litígios em curso, garantias prestadas e contingências da própria empresa ou da outra parte envolvida na operação, realizado antes da conclusão do negócio.
A due diligence permite que a parte compradora ou investidora identifique, com antecedência, passivos ocultos que podem exigir cláusulas específicas de indenização e retenção de valores.
Os achados desse levantamento também alimentam o valuation da operação, cálculo financeiro que estima o valor de mercado da empresa, já que contingências e riscos jurídicos identificados costumam ser convertidos em ajustes no valor final negociado.
Do lado de quem está sendo auditado, submeter-se a esse processo com uma carteira contratual organizada e sem pendências reduz o risco de questionamentos, atrasos na negociação ou deságio no valor do negócio.
Em todos os cenários, a lógica é a mesma: quanto mais organizada juridicamente estiver a empresa, maior sua segurança jurídica e seu poder de negociação, seja no dia a dia operacional, seja em uma operação societária de maior porte.
O valor de uma auditoria cível não se limita a reduzir o número de ações judiciais. Ela também:
Fortalece a posição da empresa em negociações, já que contratos bem estruturados dão mais segurança jurídica para renegociações e rescisões.
Reduz o tempo e o custo de resposta quando um litígio efetivamente surge, pois a empresa já conhece seus pontos de exposição e pode agir com mais rapidez.
Melhora a governança interna, criando rotinas claras de revisão contratual que evitam a repetição dos mesmos erros.
Preserva a reputação da empresa perante a sociedade, clientes, fornecedores e parceiros comerciais.
Um erro comum é enxergar a auditoria cível como uma despesa adicional, e não como investimento.
Na prática, o custo de corrigir uma cláusula contratual antes da assinatura, ou de ajustar uma rotina de atendimento ao cliente, é significativamente menor do que o custo de uma condenação judicial, de uma indenização por danos morais ou materiais, ou do desgaste de uma relação comercial mal encerrada ou comprometida.
Empresas que adotam a auditoria cível como prática recorrente, e não como última medida tendem a construir um histórico mais sólido de segurança jurídica, o que reflete diretamente em sua capacidade de crescer.
A prevenção de passivos cíveis não depende de grandes reestruturações, mas de rotina, atenção técnica e revisão periódica.
Contar com uma assessoria jurídica que acompanhe de perto os contratos e as práticas comerciais da empresa é o primeiro passo para transformar a gestão de riscos cíveis em um diferencial competitivo, e não em uma fonte constante de preocupação.

Artigo escrito por: Dra. Laura Siqueira Coutinho
Departamento Cível
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